terça-feira, 24 de agosto de 2010

A verdadeira alternativa


Dando seguimento à decisão tomada na reunião do Comité Central, em Abril, o PCP avança com uma candidatura própria: Francisco Lopes, membro da Comissão Política e do Secretariado do Comité Central foi anunciado como candidato à Presidência da República.

http://www.pcp.pt/francisco-lopes-candidato-%C3%A0-presid%C3%AAncia-da-rep%C3%BAblica








Francisco Lopes esteve em Alpiarça, em Janeiro deste ano, para participar nos trabalhos da Assembleia da Organização concelhia do PCP

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

APELO


Face à grande quantidade de pedidos de transferência de residência de cidadãos de Alpiarça para Almeirim, motivada pela vinda do Vitorino (da Boina) ás festas da vossa terra, venho desta forma apelar a que todos os interessados em mudar de residência, não o façam sem contactarem antecipadamente os nossos serviços, de foram a que se possam evitar as indesejáveis "bichas" .
Aos cidadãos que se encontram em acolhimento nas Instituições de solidariedade social do nosso concelho, enquanto não conseguirem residência, ser-lhes-á fornecido diariamente um Kit de sobrevivência que consta de uma sopa da pedra instantânea e uma caralhota das grandes.
Mais se informa que está proibida neste concelho a audição de musicas do Vitorino e a utilização de boinas pretas na cabeça.

Gomes de Sousa

Mais um Vitorino...

Se vem o Vitorino da boina, se vem o Vitorino sem boina mas que é do PS, então tirem a Floribela e ponham este...Vitorino!

Uma sugestão...

E que tal trazerem também este Vitorino?
Assim ficavam quase todas as sensibilidades representadas na nossa Festa!

A Floribela e o Vitorino Juntos? CONCORDO!

ESTA NÃO FOI INVENTADA...

Força Vitorino!
És muito bem vindo a Alpiarça!
No dia do espectáculo, espero que cantes uma cantigas cubanas. eu até já estou a tratar de mudar o meu visual para poder aparecer em grande na noite do teu espectáculo.
Um beijo grande desta tua fã.
Já agora, um chocho também para a Floribela.

Força Vitorino, estamos contigo!

Depois de tantas e tão doutas palavras sobre a vinda do Vitorino à ALPIAGRA, que entretanto já chegaram aos ouvidos do cantor,estamos em condições de informar que ele se prepara para surpreender... Na primeira parte do espectáculo vai actuar sem boina (evitando dessa forma ferir mentes mais sensíveis) e...não vai haver segunda parte!
É verdade. A segunda parte será preenchida com uma sessão de autógrafos da Floribela!

APELO

O AGIT lança aqui o desafio a todos os que gostam, adoram, detestam, amam o VITORINO, para que dinamizemos um MOVIMENTO de boas vindas ao VITORINO!
Enviem mensagens, bonecos, flores, garrafões de vinho...
Tudo será publicado neste blog e o seu conteúdo será dado a conhecer ao Vitorino...e à FLORIBELA!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O Movimento Operário Português e a República



http://www.omilitante.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=418&Itemid=33

Evocar o Centenário da República

Histórias de vida (final)


(Por Américo Abalada) 

Intimidação e Tortura

 Ao fim de dezoito dias do meu pai estar preso é que autorizaram a visita, eu com a minha mãe tentamos meia dúzia de vezes visita-lo, não o conseguimos.
A visita foi na prisão do Aljube Lisboa, chegamos a visita com o meu pai separado dele mais de um metro e entre nós duas paredes com vidro e rede, deu-me grande tristeza mas conseguimos reagir, de seguida olhei para as mãos do meu pai que ele despercebidamente mostrou-nos estavam inchadas e esfoladas, perguntei o que têm nas mãos pai, e ele respondeu foi da porrada que levei. O PIDE que estava entre nós a fiscalizar a visita, disse para o meu pai faz favor de me acompanhar que a visita está terminada, e assim aconteceu. No primeiro minuto acabou a visita.
Sai para fora com a minha mãe tão nervoso que quando me vi livre do guarda, chorei, chorei até aliviar um pouco que estava de rastos, a minha mãe nem se falava. Porque a nossa acção era resistir e não chorar ao pé daquela cambada, porque chorar ou mostrar tristeza, não podia ser ao pé daquela gente, não se matou nem se tratou mal ninguém só se lutou por causas justas, direito a dignidade humana, pelo nosso trabalho, pão e liberdade, lutar abertamente contra todas as injustiças.
Nós na rua em frente ao edifício prisão Aljube, ouvimos do quinto andar a voz do meu pai gritar, vão a sede da PIDE António Maria Cardoso, eles tem de nos dar a visita e gritava repetidamente para nós ouvirmos.
Uma senhora passou por nós e perguntou-nos, o que se estava a passar e nós contamos e a senhora disse vão lá sim que eles tem que vos deixar ver o vosso familiar, a minha mãe disse que não sabia onde era a sede da PIDE, a senhora aprontou-se a ir connosco, e foi.
Chegamos a sede da PIDE a senhora foi lá dentro connosco, explicou o que tínhamos a fazer, deu-nos coragem e não sair dali sem garantias da visita, e que se ia embora e deu-nos força, e antes de sair soubemos que era esposa de um preso político, e disse-nos em qualquer circunstância temos de lutar pelos nossos direitos, se não lutar-mos ninguém nos dá nada.
Assim fizemos,  ficamos a espera da resposta, passado algum tempo, mandaram-nos esperar mais um bocado, e lá veio a informação, para nós voltarmos no dia seguinte, pelas 10 da manhã que iam tentar resolver o assunto. Fomos embora a pensar que não resolviam nada.
No dia seguinte nós fomos e atenderam-nos, mandaram esperar um pouco e dai por algum tempo, mandaram-nos subir para o terceiro ou quinto andar, se não estou enganado, qual é o nosso espanto entramos numa gabinete e estava o meu pai com um PIDE á nossa espera para a visita em comum, que isso nunca existia a visita era sempre á distância e com vidro e rede a separar-nos, aconteceu o inexplicável.
“neste relato da minha história de vida ainda vão ler, o pormenor de uma tortura, de Manuel Mendes Colhe”
Aproximadamente a um ano de prisão é julgado no tribunal da boa hora (penso que foi em má hora, mas chamam-lhe boa hora), o processo envolve diversas pessoas, o julgamento dura diversos dias, eu e a minha mãe fica em casa de um camarada na Cova da Piedade, no período do julgamento eu fico no corredor do tribunal, era menor e não podia assistir, no último dia é lida a sentença, o meu pai é condenado a dois anos e meio e medidas de segurança. (O que eram medidas de segurança, o preso podia ser sempre condenado a período igual no fim de cumprir dois anos e meio, o regime fascista levava o preso a tribunal só para dizer que havia estado de direito, mas eles só o soltavam quando queriam. Existiu diversos presos que isso aconteceu, era conforme a responsabilidade que eles imaginavam que cada um tinha na organização do Partido Comunista Português, uns chegaram a estar presos 21 anos, como aconteceu ao Francisco Miguel. O Severiano Falcão esteve preso 14 anos.  
Até ao julgamento o meu pai esteve preso no forte de Caxias depois foi transferido para o forte de Peniche, onde teve o resto do tempo, excepto um pequeno período que esteve no hospital prisão de Caxias.
Eu e minha mãe íamos visitá-lo de mês a mês, não havia condições para mais a vida era muito pobre na altura e foi como os meus pais estabeleceram. As visitas eram só de familiares directos, esposa filhos pais e irmãos, ou com pedido especial a direcção da cadeia por vezes autorizava, a visita de outros parentes, nos últimos tempos do meu pai estar preso eu já tinha mais idade cheguei a ir algumas vezes sozinho.

18 - Mãe e filho presos em Salvaterra

Uma das prisões do meu pai não sei precisar qual, a GNR chegou a casa para prender o meu pai ele não estava, já tinha saído andava a trabalhar fora da terra. Perguntaram a minha mãe se sabia onde andava a trabalhar, ela respondeu que não, sabia que tinha saído mas não sabia a localidade.
Entretanto revistam a casa sem mandato, sem nada faziam o que queriam, a GNR foi acompanhada da PIDE e esta é que fez a revista a casa, a minha mãe levantou-me a mando deles, e disseram-lhes que ela tinha que os acompanhar se não tinha onde me deixar, a minha mãe respondeu que não e eu ia para onde ela fosse.
Saímos de casa a PIDE mandou-nos entrar para um carro preto grande que a PIDE tinha, não sei a marca que na altura não conhecia nada de carros, e seguiram connosco não sei para onde a minha mãe ia num estado lastimoso e eu criança sentia que a sua postura nem força tinha para, me dar carinho e aconchego, não devíamos saber para onde íamos e como íamos o raciocínio devia de ir praticamente parado, foi uma das piores sensações que me lembro ter tido, tive muitas que hoje até nem me lembro mas esta foi forte.
Íamos numa estrada passando por homens de bicicleta que deviam ir para o trabalho como o meu pai, e a PIDE perguntava a minha mãe se reconhecia o meu pai, será algum destes, e por diversas vezes, a mesma pergunta, a minha mãe respondia que não conhecia ninguém. Depois minha mãe disse-me não conheci ninguém porque ainda era de noite escura era madrugada, mas mesmo que conhecesse não lhes dizia.
A PIDE alguns km à frente descarrega-nos num posto da GNR e perguntam á minha mãe se temos dinheiro, o que ela respondeu que não, e abalam, ficamos fechados dentro de uma casa presos eu com minha mãe, sem saber-mos onde estávamos, mais tarde um guarda passa pela sala e minha mãe, pergunta onde estávamos o guarda responde, no posto da GNR em Salvaterra de Magos, e não sabia mais nada.
O tempo foi-se passando e a minha mãe diz-me eles diziam que não sabiam onde o teu pai estava foram prende-lo, ele anda a trabalhar aqui em Salvaterra para o Ribeiro Minhoto, andavam a esgraminhar, ou seja a arrancar uma erva daninha que se chama grama os agricultores conhecem bem, se não for arrancada todas as raízes ramifica-se rápido de novo.
Mais tarde começou-me a dar fome, e eu comecei a pedir comer, minha mãe chamou o guarda e disse, então temos presos e não nos dão comer, quero comer para o miúdo, que eu nem fome tenho, o guarda responde que não tem comer, e saiu, mais tarde aparece com um bocado de pão cheio de bolor, dizendo que tinha aquele bocado de pão dentro do armário e era o que podia fazer, que não sabia de nada. A minha mãe pede uma faca, limpa o bolor do pão, e eu comi mesmo a cheirar a bolor e duro como o ferro, com uma pinga de água foi um manjar o dia inteiro que foi obra.
Ao pé da noite vêm um guarda dizer, que a PIDE deixou dinheiro para a carreira de Salvaterra de Magos a Alpiarça, e ordem para nos soltarem perto da hora da carreira que era pelas 18 horas, assim aconteceu saímos, cá fora perguntamos onde se apanhava a carreira, e lá viemos para Alpiarça, saímos de casa de manhã cedo de madrugada, para voltar de noite, com um dia por inteiro sem liberdade e tratados de forma desumana.
Todo o dia e sem saber se o meu pai tinha sido preso se não, em Alpiarça ninguém sabia de nós, nem a família, nem os vizinhos nem as pessoas que andavam a trabalhar com a minha mãe, criam dar a informação que tinha chegado de Salvaterra que a PIDE tinha lá ido buscar o meu pai debaixo de prisão.

19 - Preso em Salvaterra

Mais tarde o meu pai conta-nos, o episódio da prisão. Que andava com os camaradas a trabalhar dentro da vinha e é informado pelo capataz, que a PIDE está no quartel onde eles ficavam de noite quando não iam a casa, e mandaram-no chamar, e diz o António se quiseres fugir por aqui foge, eu meu pai diz que pendura a cabeça e chora, e diz os homens também choram, dai por pouco, diz ao capataz não eu vou ter com eles. Volta-se para os camaradas, e diz olhem rapazes está ali a PIDE vou preso outra vez, lotem pelos vossos interesses e sejam firmes que eu vou tentar fazer o mesmo. Segundo contou o capataz o rancho pouco falou o resto do dia. Que sorte desta vida que não se pode lutar pelos seus direitos.
O meu pai lá foi ao encontro da PIDE e lá foi de novo preso.
Lá foi no tal carro preto grande, mal sabia que nos tinha trazido para o posto de Salvaterra também presos, nós tivemos mais sorte que foi só por horas. A PIDE dentro do carro pergunta o que ele andava a fazer, meu pai respondeu a esgraminhar, o PIDE disse é o que nos andamos a fazer. Resposta os senhores não sabem esgraminhar deixam muitas pontas é como a grama ainda rebenta com mais força. Quando chegou a Santarém foi castigado com surrado pela resposta.
Quando faziam prisões levavam o preso para Santarém, só depois iam numa carrinha própria para o Aljube ou logo directos para a sede da PIDE, para serem amassados e torturas do sono entre outras diversas.

20 - O interrogatório da PIDE na prisão de Manuel Mendes Colhe

(Relato de Manuel Mendes Colhe)

O que se passou a seguir foi de grande sofrimento físico e psicológico para mim. Estive vários dias seguidos em interrogatórios, sujeito a grandes vexames e torturas. Fiquei com a noção de que tinha estado 11 dias seguidos a ser interrogado, depois, analisando bem outras situações que se passaram, acho que devem ter sido apenas 10 e não 11, os dias em que tive na sala com um agente da PIDE, para me fazerem perguntas e não me deixarem dormir. À porta talvez com medo que eu fugisse, estavam mais dois. E foi assim, comigo sempre em pé, na tortura do sono, que tentaram tirar-me todo o tipo de informações. Foram momentos difíceis, de contar. Tinha alucinações, via os objectos que me rodeavam, deformados, por exemplo os simples nós nos tacos de madeira do soalho parecíamos grandes bichos, as paredes da sala parece que se fechavam e desabavam sobre mim, ouvia sons completamente disparatados para o momento, qualquer som produzido, por menor que fosse, parecia que me entrava pela cabeça dentro, como se fosse um barulho enorme, depois comecei a delirar e nem sei se sofria naquele momento, tal a insensibilidade que se apoderou de mim. No meio destas alucinações cheguei a atirar-me a um PIDE com uma fúria descomunal e a puxar-lhe a gravata, mas imediatamente saltaram todos em cima de mim, lançaram-me ao chão, pisaram-me o pescoço e espancaram-me até quase não dar acordo. Quantas vezes os olhos quase se fechavam, ou fechavam-se mesmo, cansados que estavam por não dormir e era logo empurrado para não me deixarem descansar minimamente.
Parece impossível como é que uma pessoa consegue aguentar aquele suplício, o corpo e cérebro já não reagem com normalidade, um torpor esquisito apodera-se de nós, chega-se a desejar a morte ali mesmo, como forma de libertação deste autêntico massacre, físico e psicológico, a que somos sujeitos. A morte, sim a morte, era o melhor que nos podia suceder em muitos daqueles momentos em que somos tratados abaixo do que alguém hoje possa imaginar, em que a dignidade humana desce abaixo de zero. Alguém que não estivesse informado quem era a PIDE não poderia acreditar como é que seres humanos tratavam assim outros seres humanos. Só quem sofreu na pele esta situação pode avaliar aquilo que estou a dizer.
Depois mandaram-me descansar três dias, em que estive sempre a dormir, pois estava todo “escavacado”, claro que isso não era nenhuma benesse daqueles carrascos, mas uma forma de permitir que o corpo e a mente aguentassem mais interrogatórios. Seguiram-se mais uns seis ou sete dias dentro do mesmo estilo, muitas torturas pancada por tudo e por nada, atiravam-me a parede, davam-me bofetadas e sobretudo faziam-me perguntas e mais perguntas, sobre a actividade do Partido, sobre a organização e sobre as pessoas com quem tinha contacto. No fim deste tempo todo de interrogatório enviaram-me para a prisão de Caxias e meteram-me na incomunicabilidade e durante um mês e tal não tive qualquer contacto com os outros presos, nem tinha visitas. Voltei depois ainda diversas vezes à rua António Maria Cardoso para novos interrogatórios, mas agora por períodos mais curtos.
Fui julgado no Tribunal da boa hora em Lisboa, ou nos fins de 1965 ou princípio de 1966.
A acusação era de ter actividades subversivas e de pertencer ao Partido Comunista Português, que era uma associação politica ilegal.
Fui julgado com outros presos, todos relacionados com a greve dos mármores de Pêro Pinheiro e todos membros do Partido, embora eu fosse o mais responsável. Apanhei 3 anos e medidas de segurança deu a volta dum total de 6 anos de prisão.
Sou julgado novamente no tribunal de Sintra passados alguns meses, mas unicamente por ser portador de documentos de identificação falsos, no entanto a advogada advertiu-me logo, que não iria ser como na boa hora em que os juízes eram autênticos PIDE, que estavam ali par nos condenar e não tinham a mínima consideração. Efectivamente em Sintra os Juízes tinham um comportamento normal de pessoas civilizadas que falavam com respeito e educação. Apanhei dois meses por causa da identificação falsa mas fazendo cúmulo jurídico, com a pena da boa hora, ficou mais um mês

21 - Uma história minha de 1979

“Vou aqui fazer um aparte que parece-me ficar aqui bem enquadrado, em 1979 na campanha para as Autarquias, vou fazer uma sessão de esclarecimento, como se chamava na altura agora o nome parece a estar desenquadrado, à Freguesia de Chãos no Concelho de Ferreira do Zêzere, chego a sala que era numa escola primária, acompanhado com um camarada meu da sede do concelho, para se compreender melhor a Câmara tem cinco vereadores os cinco eram PSD, os comunistas não tinham influencia nenhuma no Concelho nem na freguesia, quero dizer que a plateia era hostil ao acto, existiam ai umas 40 pessoas na sala, 20 das quais com paus na mão tipo cajado, o meu camarada diz-me isto vai correr mal e eu respondi vai tudo correr bem, não te preocupes, eu na altura tinha 26 anos, hoje parece muito jovem, mas na altura essa idade representava muita experiência forjada na dureza da vida, eu tinha 14 anos de trabalho e uma vida passada no duro.
A sessão não chega a começar do nosso lado, inicia com insultos do lado da assistência, começam a ofender e a chamar nomes provocatórios, que nós éramos os culpados de eles terem ficado sem nada, eram então retornados das ex-colónias.
Tentou-se por um pouco ordem a mesa, cada qual falar de sua vez e que expusessem tudo o que os preocupava, com a ajuda dum senhor que era filho da terra era bancário em Tomar e era filiado do PSD, viemos a saber depois os senhores retornados que nos provocavam eram do CDS.
Lá começamos a conversar mais civilizadamente, primeiros os senhores expuseram os problemas que os preocupavam, que foi ter vindo das ex-colónias e terem lá deixado o seu suor de anos de trabalho, (e de exploração certamente), e os principais culpados da situação eram os militares que tinham feito a revolução do 25 de Abril de 1974 e os malandros dos comunistas, e a discussão não saia dali e reflectia-se num ódio aos comunistas terrível. Chegava a situações intencionais de confronto físico, depois lá se acalmava a situação.
Chegou uma altura que lá consegui começar a falar, quase que tive de impor a minha voz para começar a ser ouvido.
Comecei por lhes dizer que eu estava solidário com eles e que tinham razão, e repete diversas vezes para me ouvirem, que tinham razão. No fim de estar do lado deles e lhes dar razão, comecei a explicar porque era comunista, e as torturas que o regime fascista tinha feito ao povo português e concretamente ao povo de Alpiarça que era a história concreta e vivida que eu lhes podia transmitir, e dizer-lhes por isso sou comunista, passados cinco minutos de estar a falar havia silencio na sala contei-lhes a história da minha vida pessoal, quando estava quase no fim havia homens que diziam o homem está a falar verdade como o diz, e com a convicção que o transmite o homem fala verdade e tem a sua razão.
Os senhores tinham razão mas o 25 de Abril era necessário não podíamos viver em ditadura e repressão constante tivemos de dar liberdade ao povo, e um povo não é livre quando oprime outros povos, como os das ex-colónias Portuguesas, a revolução de Abril só ajustou a sociedade e implantou a democracia e deu novas e melhores condições ao povo, mas as revoluções trazem desencontros, que foi o caso dos senhores que regressaram e deixaram lá o esforço do seu trabalho, perderam alguns para o bem de todos, foi injusto para estes que o regime empurrou-os para lá deu-lhes esperança de uma vida melhor e isso saiu furado mas o sistema fascista é que tem a culpa não a liberdade e a democracia.
Os senhores queriam acabar a sessão de esclarecimento numa adega deles próprios a comer e beber e a conviver connosco, isso só não aconteceu porque, ia-mos para outra sessão noutra Freguesia do Concelho e estávamos atrasados. Tudo acabou em bem porque todos compreenderam as razões de cada um”.

22 - O capitalismo coveiro de si próprio

Na derrocada do campo socialista dos Países de Leste nos finais do século XX, desmembraram partidos nestes Países e nos Países capitalistas, porque se iludiram que a sociedade capitalista era o fim da história, porque diziam os capitalistas que o comunismo morreu, como morreu uma coisa que ainda não nasceu. O que morreu foi o sistema socialista no leste. Não o socialismo, porque ele existe em diversos Países como ensaios justos, de uma melhor distribuição da riqueza de cada País para todo o povo, e isso existiu no ensaio nos Países de leste durante mais de setenta anos na URSS, e mais de quarenta anos nos restantes Países que aderiram ao sistema.
Hoje de novo no capitalismo em quinze anos os povos dessas Pátrias estão em situações de estrema miséria, alguns com guerras que destruíram milhares de vidas e destruição das estruturas que o povo tinha construído, guerras implementadas pelo sistema capitalista para desfrutar de diversos interesses, sem condições sociais para a esmagadora maioria e as riquezas fabulosas dos Países nas mãos de meia dúzia deles que roubaram a todo o povo.
A destruição do sistema socialista de leste, não prejudicou só o seu povo, prejudicou e muito os povos de todos os Países e principalmente os da Europa, as regalias sociais existentes na Europa, tinha a ver com a vitória da URSS na segunda guerra mundial e a libertação dos povos e a sua escolha o socialismo, estes tiveram a liberdade e muitas regalias sociais impensáveis, se o Hitler tivesse ganho a guerra, representava a escravatura e morte. Os povos progressistas dos países da Europa, lutaram e conseguiram as regalias sociais que existiam a uma década a traz, porque a seguir a guerra mundial o capitalismo na Europa ficou debilitado, não tinha força para impedir as reivindicações dos trabalhadores e dos povos. O capitalismo tinha que competir com as regalias sociais que vinham dos Países Socialistas e isso também favorecia os trabalhadores nos países capitalistas toda a correlação de forças ajudava. Enquanto existiu o campo socialista não havia guerras na Europa, porque era impensável, o mundo estava mais seguro, em todos os campos o equilíbrio dos dois sistemas na sociedade era vantajoso para os povos, porque o capital com a ganância do lucro destruí tudo e todos para conseguir os seus fins até um dia se destrói a ele mesmo, porque criou forças opostas que o vão destruir, o capitalismo é coveiro de si próprio, e isto preconiza a evolução da sociedade humana, é a luta do novo contra o velho. A luta aliada de milhões de revolucionários progressistas nos países, para levar a sociedade avante pela liberdade. Pelo pão e pela paz pelo progresso, a luta contra a poluição e intoxicação atmosférica no planeta, por causa da ganância do lucro nesta maldita sociedade de consumo.
Com este recuo civilizacional que estamos a viver, são cada vez mais necessárias organizações progressistas, para levar o capitalismo global a recuar, porque o seu avanço é perigoso, na Europa o desenvolvimento de organizações de extrema-direita de cariz fascizante e mesmo fascistas são um perigo real. Quando a democracia diminui concretizada pela burguesia neoliberal e a sociedade entra em conflito aparece logo a ideia do rigor com mão de ferro tipo pessoa forte, e conseguem ganhar muita gente desprevenida para esta causa, o fascismo sempre apareceu, em fases iniciais com desenfreada demagogia populista como dando uma (falsa) voz, nacionalista e racista.
Estamos a falar de fascismo, daí todos os cuidados serem poucos.
Porquê?
Porque é a forma mais violenta de organização de Estado e da sociedade a que o grande capital e a burguesia podem recorrer para imporem os seus interesses. Porque quando historicamente surge não se anuncia como tal, antes recorre a vários disfarces e conta com a desatenção ou mesmo com uma cumplicidade passiva por parte de sectores do capital e da burguesia que não sendo propriamente fascistas, gostam de jogar também com essa carta escondida atrás das costas.



domingo, 8 de agosto de 2010

O Segredo

Um extraordinário documentário sobre António Dias Lourenço (Publicado em 4 partes)


http://www.youtube.com/watch?v=QIhHg95ho48

http://www.youtube.com/watch?v=xE4cZ1HRsLs

http://www.youtube.com/watch?v=K9tmw9jYn-c

http://www.youtube.com/watch?v=sNJSUE0DP98

A fuga Dias Lourenço do Forte de Peniche contada por Domingos Abrantes:


http://www.youtube.com/watch?v=JefOHS3e7ik

"Parabéns Dias Lourenço!" (produzido para assinalar o 94º aniversário de Dias Lourenço, em 2009)

http://www.youtube.com/watch?v=VgKzjRBgB_w

Evocação do Centenário da República

                                         

A Confederação Portuguesa das Colectividades realiza dia 19 de Agosto, às 21h00, na sede do Clube Desportivo “Os Águias”, uma evocação ao Centenário da República que contará com intervenções de Augusto Flor, presidente da Confederação Portuguesa das Colectividades, Mário Pereira, presidente da Câmara Municipal de Alpiarça e Pedro Ventura, presidente Científico das Comemorações Associativas.
Na oportunidade, será apresentada a exposição nacional e um DVD a propósito das comemorações que será distribuído a nível nacional, no decorrer das diferentes evocações que percorrem diferentes localidades do país, tais como conferências e debates que também irão passar pela cidade de Tomar, no distrito de Santarém.

(Noticia do Correio do Ribatejo)

António Dias Lourenço, exemplo de luta

António Dias Lourenço, exemplo de luta

sábado, 7 de agosto de 2010

Faleceu António Dias Lourenço


O Secretariado do Comité Central do Partido Comunista Português informa, com profunda mágoa e tristeza, do falecimento hoje, dia 7 de Agosto, aos 95 anos, de António Dias Lourenço, um dos mais destacados dirigentes comunistas da história do PCP que dedicou a vida à luta da classe operária, dos trabalhadores e do povo português, à luta do seu Partido contra o regime fascista, contra a exploração, pela liberdade, pela democracia, por uma sociedade nova, o socialismo e o comunismo.

Nascido em Vila Franca de Xira em 1915, torneiro mecânico de profissão, Dias Lourenço, que começou ainda criança a vida de operário, aderiu ao Partido Comunista Português em 1932, com 17 anos de idade.
António Dias Lourenço teve activa participação na reorganização do Partido de 1940/41, nomeadamente no Baixo Ribatejo (onde integrou o respectivo Comité Regional), tendo-se tornado funcionário do Partido e passado à vida clandestina em 1942, assumindo a responsabilidade de tipografias e do aparelho central da distribuição da imprensa do Partido.
Ainda antes, no começo dos anos 40, assumiu papel importante na organização dos «Passeios no Tejo», com a participação de Álvaro Cunhal, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol e outras destacadas figuras da cultura, encontros que permitiram estreitar laços entre intelectuais e operários e impulsionar o movimento neorealista e a luta antifascista.
Eleito para o Comité Central em 1943 (do qual foi membro até 1996), Dias Lourenço integrou organismos dirigentes das grandes greves de Julho e Agosto de 1943 e de Maio de 1944 e esteve ainda ligado a outras grandes acções de massas como o 1º de Maio de 1962 e a luta pela conquista das 8 horas de trabalho nos campos. Responsável antes do 25 de Abril por várias organizações do Partido (Alentejo, Algarve e Beiras) Dias Lourenço assumiu depois da Revolução a responsabilidade pelas Organizações Regionais do Oeste e Ribatejo e das Beiras.
Foi representante do Partido no Conselho Nacional do MUNAF.
António Dias Lourenço integrou o Secretariado do Partido entre 1957 e 1962, e foi membro da Comissão Política em 1956 e entre 1974 e 1988. Foi responsável pelo «Avante!», Órgão Central do PCP, de 1957 a 1962, ano da segunda prisão, e seu Director desde a publicação do primeiro número legal em 1974 até 1991.
Preso duas vezes, em 1949 e 1962, Dias Lourenço passou 17 anos nas prisões fascistas, tendo protagonizado uma das mais audaciosas fugas ao evadir-se do Forte de Peniche em 1954.
António Dias Lourenço foi Deputado entre 1975 e 1987, tendo feito parte da Assembleia Constituinte.
Deixa-nos editadas valiosas obras ligadas à luta como «Vila Franca de Xira: um concelho no país – contribuição para a história do desenvolvimento socio-económico e do movimento político-cultural», «Alentejo: legenda e esperança», e ainda «Saudades... não têm conto! - Cartas da prisão para o meu filho Tónio».
Um dos mais destacados exemplos da resistência ao fascismo, da luta pela liberdade, democracia e transformações revolucionárias de Abril, Dias Lourenço deixa um exemplo de inquebrantável combatividade e firmeza na luta política que as gerações de comunistas, presente e futuras, saberão honrar.
O Secretariado do Comité Central endereça à família as suas sentidas condolências. 

Sobre o funeral
O Secretariado do Comité Central do Partido Comunista Português informa que o corpo de António Dias Lourenço estará em câmara ardente, na Casa Mortuária da Igreja de S. Francisco de Assis, na Av. Afonso III (ao Alto de S. João), a partir das 16h00 de hoje, dia 7, realizando-se o funeral amanhã, domingo, dia 8, pelas 16h30, para o Cemitério do Alto de S. João, onde o corpo será cremado pelas 17h30.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Histórias de vida (7)

(Por Américo Abalada)
15 – Uma visita ao Aljube

Um dia minha mãe ia visitar o meu pai estava na altura no Aljube, e eu era para ficar na escola para não ter muitas faltas. Ela ia sozinha e trouxe-me mais cedo para baixo e eu esperava um pouco que chegasse a hora da entrada da escola, mas que eu pensei que também devia ir ver o meu pai. A carreira na altura parava em frente a brasileira, a minha mãe estava a montar-se e eu subi para a carreira que também cria ir mas já chorava com alguma intensidade, birras de criança e estava predisposto a ir. A minha mãe ia-me convencendo a ficar com o coração já partido ao ver-me assim, mas a carreira não esperava por birras de criança. O sargento Pires, frequentava aquela zona e tentou puxar-me das escadas da carreira e dizia anda menino vai para a escola deixa a tua mãe partir, eu pontapeava o gajo, eu criança não podia nem ver aquela farda quando mais aquele malandro assassino, a minha mãe quando viu o sargento Pires a por a luva em cima do seu querido filho vem da carreira pelas escadas abaixo dá um empurrão ao sujeito, que se não fosse outros estarem por traz ele tinha ficado estendido no chão, e minha mãe disse com firmeza de uma mãe ferida, por as mãos em cima do meu filho seu malandro, basta em cima do pai quanto mais do filho.
A minha mãe pega em mim e na mala da escola, e lá vamos os dois ver o meu pai, quase todo o dia choramos foi um dia de martírio para nós, não choramos quando estávamos ao pé do meu pai na hora da visita, mas ele percebeu que estávamos tristes que ele perguntou, mas soube um dia mais tarde quando veio de novo para casa.
Quando estávamos nas visitas tanto os presos como as visitas, a postura era estar alegres com cara de esperança na perspectiva que a vitória era certa e que todos sabíamos o que andávamos ali a fazer, não se tinha matado nem roubado ninguém andava-se a realizar uma luta justa para o bem de todos dos mais necessitados e ainda hoje o objectivo é o mesmo.
 E como dizia Álvaro Cunhal, um dia quando o povo quiser, liberta-se-a da exploração que é alvo.

16 – Soltaram o Porco prenderam o dono
Certa noite o meu pai acorda com o barulho ao pé da porta do quintal de um porco que por norma estava no pocilgo, diz para minha mãe o porco parece que anda solto, e assim foi veio ver, e o porco andava solto, vai prender o porco e é surpreendido com a GNR a darem-lhe ordem de prisão visto ser de noite e arranjaram aquela forma de soltar o porco para o apanharem. O meu pai prendeu o porco, e responde a quatro GNR, que ia vestir-se e que já vinha ter com eles. Com toda esta situação eu acordo e assisto de novo a outro triste espectáculo de outra prisão. O meu pai entra para dentro de casa e diz ao cabo da guarda, agora eu só saiu aqui de casa quando nascer o sol, que é para as pessoas me verem ir preso, o cabo mostrou resistência e cria arroubar a porta. O meu pai desesperou e disso espere menta meu canalha se tocas na porta comete vivo.
O cabo ficou com outra praça ao pé da porta do quintal e mandou os outros dois para a porta principal, esperaram até nascer o sol, o meu pai lá foi preso no meio de quatro GNR, pela estrada abaixo até ao posto, e eu com minha mãe a traz, e o meu pai ia falando as pessoas dizendo vou preso outra vez não matei nem fiz mal a ninguém, ando a lutar pelos nossos interesses e esses malandros levam-me de novo preso, e assim foi a viagem  até ao posto e eu esta criança a assistir.
Íamos pela rua do casalinho abaixo em frente a loja da Maria Domingos, o meu pai pára e volta-se para o cabo da guarda e diz, o senhor não tem vergonha virem quatro homens armados de espingardas, prender um pessoa de paz indefesa e irem a fazer este triste espectáculo rua abaixo, o cabo mandou duas praças em paço de corrida e ficou ele com outro para caminharem com o meu pai.
Quando chegaram ao posto da GNR em Alpiarça, antes de chegar a PIDE, para o transportarem para Santarém e mais tarde para Lisboa, ainda fizeram o serviço deles, o cabo com o sargento Pires, danados e raivosos como cães, ainda lhe bateram e bem, para se pagarem das resistências do Abalada.   
 
17-Quarta prisão            
No dia 29 de Outubro de 1963, meu pai é preso pela quarta vez, esta prisão durou cinco anos quatro meses e sete dias. Saiu em 8 de Março de 1969.
Esta prisão dá-se por um acumular de lutas, a ultima foi a comemoração do dia 5 de Outubro, dia da implantação da Republica Portuguesa, a situação complicou-se no acto de rebentar o fogo, mandar foguetes em três sítios diferentes com pouco espaço de tempo, o que baralhou um bocado as coisas. A GNR e a PIDE, quase que apanharam os activistas que estavam a mandar os foguetes, começaram a tiro para o sítio onde estava a sair o fogo, e eles não se estavam a aperceber pensavam que o barulho era os outros camaradas que estavam em outro local dos foguetes, mas os tiros começaram a cair por perto e um levou um tiro de raspão num pé, foi um alerta para fugirem, deixaram o resto dos foguetes e um casaco pendurado numa oliveira.
O meu pai deixou um casaco muito conhecido com quadrados acastanhado, nos dois dias seguintes não apareceu em casa, com medo de ser preso, o casaco do meu pai foi oferecido pela GNR coordenado com a PIDE a um trabalhador da Câmara muito pobre que o trouxe sempre vestido nesse Outono e Inverno, mas passados esses dois dias o meu pai aparece com um casaco igual ao que a GNR apanhou, foi pedi-lo emprestado a um Alpiarcense que o tinha, era só os dois casacos iguais existentes na terra, mas o inevitável aconteceu.
O meu pai foi preso outra vez.  
Este afastamento forçado que eu tive do meu pai foi muito difícil para mim tinha dez anos, tinha passado pelas outras prisões e já tinha aprendido muita coisa, e já pensava e analisava melhor as situações, foi duro. Foi difícil para mim e para a minha mãe dos dez aos quinze anos de idade estar sem o meu pai.

(Continua)

Histórias de vida (6)

(Por Américo Abalada) 

12 – Ainda a Segunda Prisão
Eu uma criança de seis anos de idade ficava muito revoltado por terem prendido o meu pai e não aceitava a situação nem compreendia, mas como criança ia vendo tudo e fixando tudo as maneiras as formas do processo de tudo, o comportamento dos guardas a organização etc. Dentro das salas existiam os guardas prisionais, na guarda da prisão existia a GNR. Em Caxias no reduto norte para entrar existia uma cancela que levantava para entrar e sair os carros deles, depois mais a frente havia um portão fechado com dois metros e tal de altura mais adiante voltávamos a esquerda havia outro portão que dava para um túnel com casas de um lado e de outro passando esse túnel ficávamos num pátio fechado existia uma porta a direita era a sala de visitas.
A partir daqui não conhecíamos mais, os presos chegam a visita não sei de onde. A sala tinha um banco corrido que dava para duas pessoas e um tipo de balcão ou mesa a nossa frente com uma parede de cada lado, o balcão tinha ai uns oitenta centímetros até a um vidro que dividia o preso das visitas, e do lado do preso era igual tinha também um balcão igual ao de cá, a distancia das visitas do preso era metro e meio metro e sessenta, separados ainda com o tal dito vidro.
A sala das visitas levava dez presos do lado de lá divididos entre eles com uma parede de cada lado, como era de cá, para não se verem e para nós também não vermos os outros presos, se as crianças se levantassem e saíssem do lugar viam o preso mas o guarda chamava a atenção a repreender as crianças e aos adultos não deixavam e existia sempre um PIDE para dois presos para ouvir o que se dizia e tomar conta de tudo. Dentro da sala dividida com o vidro era difícil a conversação ouvia-se mal e a sala intuía, dez presos com duas visitas cada um por média eram trinta pessoas a quererem ouvir-se e era muito difícil a conversação por vezes vínhamos da visita baralhados porque não tínhamos percebido metade da conversa.

13 – Em Liberdade
O meu pai saiu da prisão continuou a sua vida normal de trabalho, e as lutas continuaram de novo, porque a exploração era constante, a luta continuava com mais cuidados, porque era mais vigiado pelos bufos ao serviço do regime. A luta era mais organizada, esta agora era como militante do Partido Comunista Português, ao sair da prisão foi abordado para a necessidade de a luta ser mais organizada para o seu maior e melhor desenvolvimento em defesa do interesse dos trabalhadores, e só o partido com rigor e disciplina, conseguiam melhor ultrapassar e dar a volta a repressão do sistema, a luta clandestina tinha de ser rigorosa e precisa para não serem presos com tanta facilidade, e a nível ideológico o seguimento da luta, tinha objectivos concretos, e propostas concretas para acabar com a ditadura fascista, e criar um regime democrático de liberdade plena.
Estou a lembrar-me que existia documentos de lutas concretas como o Avante e o Militante órgãos centrais do PCP, esta luta era clandestina, os documentos tinham que estar bem guardados, escondidos por motivo de serem apanhados pelos bufos do regime ou a GNR a PIDE, por certo quem era identificado de os possuir apanhava muitos anos de prisão, ser membro do PCP ou apanhados com material do PCP, era grave.
O meu pai escondia a propaganda dentro dum barracão que tínhamos, debaixo da lenha enterrada dentro de uma quarta de barro, este e outros gestos eram realizados com a presença de toda a família a minha mãe e eu, o meu pai tinha por habito explicar os assuntos responsabilizava e explicava a razão do acontecimento das coisas as consequências, se outros soubessem a situação era grave pela nossa segurança, e eu compreendia muito bem, e que belo ensinamento de vida que o meu pai me deu o esclarecimento e a responsabilidade.

14 - Terceira prisão 06-04-1962 a 19-07-1962


O meu pai é preso de novo, as lutas desenvolvem-se, existe mais actividade, os bufos andam espreitando para ver quem mais se destaca, para poderem prender e atrasar o desenvolvimento da acção dos trabalhadores, para a exploração e o regime ir avançando.
Existe uma grande greve em Alpiarça, foram trabalhar três pessoas, podemos dizer que atingiu a totalidade da Vila. A luta estava a ter um grande êxito para os trabalhadores conseguirem os seus objectivos penso que era aumento do salário e outras regalias, os piquetes de greve fizeram um excelente trabalho conseguiram convencer os trabalhadores que só unidos conseguiam os seus objectivos.
Um dos três trabalhadores que foi trabalhar aparece a noite, na loja do Manuel e Júlio Calado, com farnel na bicicleta, o meu pai diz a um camarada para ir falar com ele e convence-lo para não ir trabalhar no dia seguinte e explicar o ponto da situação, o trabalhador em causa era o Rabeca, que de seguida foi carteiro muitos anos, morava no Vale do Rato, e depois no inicio do Vale do Rato ou melhor Rua Dr. José António Simões, na quina com a Rua do Bocage, a mulher ainda hoje lá mora a mãe do Aires.
O Rabeca não aceitou o contacto e formou-se ali uma grande discussão, que chegou a briga entre o meu pai e o Rabeca. O meu pai não queria ser ele a aborda-lo por motivos de segurança, porque existia sempre bufos misturados os que se sabia e outros que não conheciam se eram informadores da PIDE, tinha vindo da prisão não a muito tempo e tinha de ter cuidado, na prática não teve cuidado nenhum.
O Rabeca ficou um pouco dorido, abalou a gritar que ia a casa buscar a espingarda e que matava o meu pai. O Natalino morava no prédio em frente chama o meu pai para não avançar a confusão, dentro do prédio eles vêem o Rabeca chegar com espingarda a procura do Abalada como se fosse um coelho.
Os camaradas chamaram o Rabeca a razão e ele foi-se embora convencido que se tinha metido numa grande alhada, que o meu pai pelos acontecimentos ia preso de novo.
De seguida o meu pai vai para casa, passado pouco tempo bate o Rabeca ao portão para falar com o meu pai, o Rabeca pede desculpa do acontecido, e o meu pai diz agora vou preso de novo, estas lixado comigo, a conversa acaba.
Passado dias o meu pai vai preso por agitador e dirigente de greves, passa mais três meses e tal de prisão.
É posto em liberdade porque não conseguiram provar o que pretendiam, desta vez não o levaram a julgamento.   

(Continua)

Histórias de vida (5)


(Por Américo Abalada)

9 - Segunda prisão (16-11-1959 a 02-04-1960)
Quando tinha seis anos da minha tenra idade, lembro-me da segunda prisão do meu pai, a GNR bate a porta os meus pais levantam-se e a guarda diz ao meu pai que estava detido, de seguida revistaram a casa toda para ver se encontravam propaganda subversiva ao regime diziam eles, alguns panfletos de alguma greve ou o Avante, não encontraram nada, mas conseguiram acordar-me ao revolverem o colchão na procura, acordaram uma criança com seis anos, ao acordar vejo dois GNR de volta da minha cama com alguma agressividade, fiquei assustado e comecei a chorar.
Os meus pais lá me explicaram o que se estava a passar, e eu compreendi que ia ficar com a minha mãe e o meu pai ia preso, hoje já ia passar pela falta dele, que na primeira prisão era história para mim visto ainda não ser nascido, quando ele tinha sido preso pela primeira vez.
Realçar que a partir daquela data ainda fiquei com mais amores a GNR do que já tinha, a GNR ao sargento Pires e a PIDE. O sargento Pires ainda hoje figura de referencia e conceituada na nossa terra, de muita gente e o pior de camaradas meus do meu Partido, dão-lhe o bom dia e conversam com o senhor delicada e demoradamente. Este povo tem provas provadas que é de paz e tem civismo, até trata tão bem um homem que foi um seu carrasco, um autêntico agente da PIDE que prendia batia e torturava, aqueles que lutavam por melhores condições de vida e por fim de uma ditadura fascista que era a vergonha do país perante o mundo e a vergonha perante os seus cidadãos.
Não será necessário o senhor Joaquim Luís Rosa do Céu levantar tantos processos judiciais, a cidadãos desta terra e ainda andar com segurança pessoal, que o povo trata todos por igual, preservando com respeito os direitos o civismo e humanismo de cada um.

10 – A seguir a segunda prisão
Com o meu pai preso fiquei com a minha mãe, deprimido com algum medo de criança, a minha mãe era uma mulher um pouco fechada tristonha. Protegia-me muito, tinha muito medo da vida, tinha uma maneira de ser muito diferente do meu pai, e eu sofri um bocado com isso. Ainda hoje sinto que perante outros, altera-me muito mais o sistema nervoso do que é normal, a situação que passei foi muito traumatizante para uma criança de tenra idade.
Eu gostava de ter o meu pai como outra crianças mas era impossível, andava sempre a chatear a minha mãe porquê, o meu pai não vinha para casa, e cria que ele viesse, e tinha ataques de choro que a minha mãe não sabia o que fazer, a instabilidade emocional era constante e ganhava diversos medos, tinha pouca confiança nas pessoas passava fases que tudo me assustava.
Adiante, quando minha mãe ia visitar o meu pai a prisão eu ia sempre com ela e acompanhava todo o processo prisional que estava ao alcance dela.
Nesta fase comecei a perceber a solidariedade que existia com os presos políticos, existia um ou dois responsáveis em cada rancho que aos sábados quando recebiam a féria ou ordenado, no fim da semana de trabalho, que recebiam uma colecta de quem queria participar, que era distribuída pelas famílias dos presos políticos, para ajudar as famílias a andar com a vida para a frente, visto ficarem só com o salário da mulher quando o tinha. Esta solidariedade era um acto muito importante pelo dinheiro em si, mas a importância maior era o sentir da situação e o reforço da unidade dos trabalhadores.
O preso político era preso por ter actos de defesa no interesse de todos os trabalhadores, no aumento de salários e melhores condições de trabalho, por isso na sua prisão haver a reciprocidade no apoio dos trabalhadores a sua companheira, a luta continuava a ser de todos.
Começar a compreender esta vida com seis sete e oito anos de idade coloca-nos com alguma maturidade de analise, dizendo melhor é conhecer o miolo da situação.

11 - Continua a segunda prisão.
O meu pai teve preso quatro meses e dias, respondeu no tribunal da Boa-Hora em Lisboa sem culpa formada foi absolvido.
Era acusado de desobediência ao regime, grevista motivador de outros para greves, militante do Partido Comunista Português, que ainda não o era, entre outras, nada foi provado o juiz absolveu.
A minha mãe participou no julgamento, e eu como era menor não participei, tinha que ficar sentado num banco no corredor do tribunal a espera de minha mãe, eu não me lembro quem foi mas foram pessoas de Alpiarça assistir e outras testemunhas de defesa do meu pai. Era preciso ter coragem na altura para se ser testemunha de um preso político.
Quando havia a prisão os familiares não sabiam para onde levavam o preso, tínhamos de o procurar, no Aljube ou na sede da PIDE a António Maria Cardoso, por vezes ia-mos a um lado diziam que não estava, ia-mos a outro diziam que também não estava, na prisão estavam os primeiros quinze e vinte dias sem poderem ter visitas, era o período dos interrogatórios e as torturas, e o preso não estava em condições de o apresentarem a família que por vezes estava um pouco molestado. 

Lembro-me de ir com a minha mãe visitar o meu pai a cadeia do Aljube em Lisboa, entramos no hall onde estava um guarda assentado a uma secretária, depois ia-mos para a visita que era uma porta a esquerda, entravamos numa sala e o preso entrava noutra sala que tinha uma divisória com madeira até altura da cintura e para cima até o tecto tinha uma rede de malha fina ai com dois centímetros, depois existia um corredor com largura ai de um metro e vinte e outra divisória de rede do lado do preso, nós estávamos separados do preso pelo corredor e duas redes, nunca nos tocávamos nem beijávamos era a distancia, com um PIDE no meio do corredor sempre ao pé para ouvir tudo o que dizia-mos, as conversas que falávamos tinha que ser só da vida pessoal e pouco mais, o preso não podia falar das condições da prisão e da tortura, nem do comer se era bom ou mau nada, nos não podíamos falar como por cá se passavam as coisas, nada, o tempo da visita era pouco era o que eles quisessem o regulamento era uma hora, mas na prática o PIDE é que mandava era dez minutos outro dia vinte minutos e por vezes uma hora era como queriam.
Os presos estavam em interrogatórios e torturas no Aljube e iam a António Maria Cardoso que era a sede da PIDE. Tempos mais tarde passavam para a prisão de Caxias, conheço o reduto Norte, depois foi construída o reduto Sul e existia um pouco mais afastado a prisão hospital de Caxias.

Histórias de vida 4

(Por Américo Abalada) 

7 - A morte de Alfredo Lima em 1950
A GNR assassinou Alfredo Lima o acto foi sentido pela esmagadora maioria da população trabalhadora de Alpiarça, eles mataram-no e levaram-no para Santarém, não se sabe porquê, porque Alfredo já estava morto, segundo diziam testemunhas oculares.
A indignação a revolta da população, criou grandes dificuldades ao regime na altura que as pessoas não se acomodaram, não foram trabalhar, para participar no funeral, mas o embaraço das autoridades era tanta, pela pressão das pessoas, que diziam que o funeral era de manhã depois de tarde e depois no outro dia, e no outro, a população não desarmava, juntava-se pela baixa em grandes quantidades.
Até que enterraram Alfredo Lima em segredo no cemitério em Santarém. Foi uma atitude de grande cobardia, esta tinha sido uma vitória da unidade e repúdio da população.
O caso foi sentido de tal maneira que vinte e quatro anos depois, em 25 de Abril de 1974, é derrubado o regime fascista de Salazar e Caetano, e passados poucos meses a transladação dos ossos de Alfredo Lima são transladados de Santarém para Alpiarça numa grande acção de massas, que participa de novo quase toda a população.
Esta a prova prática da resistência deste povo desta terra, pelo direito ao trabalho a salários dignos, e não a repressão que o regime consagrava, a luta em 48 anos foi difícil, muito difícil, mas com derrotas e pequena vitória destas e muitas outras pequenas vitórias, que pareciam ser insignificantes, consciencializaram as populações e enfraqueceram o regime até a vitória final da Liberdade e Democracia, hoje de novo muita afectada pela política realizada a mais de trinta anos pelos sucessivos governos.

8 - A fuga adiou a prisão
Aos meus cinco anos de idade, ou seja em 1958, o meu pai tinha fugido, por motivos políticos, para não ser preso visto a bufaria andar já muito a traz dele, e alguns camaradas deram-lhe a opinião de ele sair uns tempos da terra, depois logo se via.
Um dia minha mãe diz-me que íamos ter com o meu pai, perguntei onde, e responde minha mãe que não sabia deviam-nos lá levar.
Certo dia carregamos uma tralha tipo meloeiros, pouca coisa, na carrinha de caixa aberta de João José “Diabo” pai de Armindo João Gaspar Pinhão, ex-presidente de Câmara de Alpiarça, eleito pelo Partido Comunista Português. Lá partimos sem saber o destino naturalmente por medidas de segurança, para se fossemos intersectados pela PIDE não nos podermos descuidar com a informação imprópria dizendo sem crer onde estava o meu pai. Quando chegamos não sabíamos onde estávamos e João José informou que estávamos no campo de Azambuja, e fazia meloal ao pé onde ficávamos o António Leocádio “O Vinagre”, toda a família já faleceu, morava em frente da DaniDoce, faleceu ele a mulher filha genro e neto. Ficamos numa barraca dum senhor conhecido de António Leocádio, que fazia grande seara de arroz. Ao chegar, ia muito mal disposto da viagem cria ver o meu pai ele não apareceu instantaneamente, senti-me inseguro comecei a chorar, que só parou a chegada do meu pai dai por um bocado, eles descarregaram as nossas coisas que trazia-mos colocaram dentro da barraca do homem do arrozal e o João José “Diabo” lá partiu para Alpiarça.
Ao chegarmos o meu pai andava com um braço ligado, não sabíamos o que tinha acontecido, então foi ele que ia dormir noutra barraca longe dali por motivos de segurança, e de noite fazia o caminhada a atalhar saltava valas, nessa dita noite do acidente ia a saltar a uma das valas com uma inchada as costas e errou o salto caiu para cima da inchada e fez um grande golpe no braço, que teve de ser socorrido porque o golpe era grande e fundo. Mas como resolvia o problema? Visto para ir ao médico tinha de se identificar e não podia ser por motivos de segurança, lá resolveu ir dar uma identificação falsa, o médico coseu o braço levou ainda muitos pontos, não me lembro quantos, e fez os restantes curativos não voltando mais.
Lá fiquei até ao fim das searas com minha mãe e meu pai, eles trabalhavam e eu acompanhava-os, para não ficar sozinho na barraca, a vida era de grande secretismo para correr tudo bem, na altura vivia-se com fracas posses, para não dizer que a vida era de miséria.
Coisas de criança, lembro-me que quando cheguei existia uma gata com gatinho pequeninos ainda com os olhos fechados, que tinham nascido numa das noites anteriores na barraca onde o meu pai dormia a cabeceira dele, era uma das minhas brincadeiras, ganhei certa amizade aos animais, que quando viemos embora trouxe uma gatinha pequenina, que morreu de velha lá em casa, sempre tratada por toda a família com um carinho diferente pela circunstância. Esta e outras referências da repressão do regime ficam para sempre gravadas na memória de uma criança, que fazem o fio condutor da sua vida.

(Continua)